2016

entre-vista

Conversa entre a curadoria e os artistas sobre o desenvolvimento do projeto Permanências e Destruições em 2016

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CURADORIA:   O projeto Permanências e Destruições propõe, em sua origem, uma experiência de deslocamento. Como é pensar essa ideia a partir da Ilha?

JONAS ARRABAL:​   A​ gente vive atualmente tanto caos e barbárie, seja no cenário político, social.. a notícia absurda e triste do estupro da menina por 30 homens​ é a última imagem da falência desse território "real" que se apresenta esgotado​, que precisa ser reinventado. Deslocar​-se​ para outro lugar, habitar outro lugar. ​A destruição não é somente observada a partir do tempo, mas a partir do "progresso", da "ordem" que precisa ser imposta e seguida.

E ​surgiu, no meio do caminho, a possibilidade de habitar a ​ilha de Luz Del Fuego​,​ mulher que foi brutalmente assassinada​ por dois homens. ​Essa ilha no meio da Baía de Guanabara é como uma utopia. Uma ilha, um horizonte, como afirma Galeano, para que nunca esqueçamos de caminhar. Essa ilha propõe novos lugares de encontro, novos lugares para habitação. E isso não se apresenta na construção de novos lugares físicos, mas de pensamento, discussão, de manutenção da utopia, para lembrar sempre que é preciso caminhar, mesmo em tempos selvagens. A imagem da ilha deserta é algo que surge sempre como refugio, mas eu acredito nessa ideia de horizonte... e de habitar novas ideias, habitar novos pensamentos, habitar outras moradas. Não há pontes até a ilha, mas um navio. Um lugar a parte,entre o mental e o físico, uma habitação em suspenso.

Heidegger​ fala que permanecer num lugar já é por si só habitar esse lugar e que nós não habitamos um lugar simplesmente porque o construímos, mas sim construímos um lugar à medida que habitamos​. Acho linda essa imagem, e penso nesses deslocamentos dos lugares "construídos", edificados, e procuramos lugares de permanência, de habitação. Ninguém tem noção do todo, como o cego que apalpa o elefante, parte dessa ideia, de deslocar-se e propor que o espectador habite a experiência, a deriva, de um lugar utópico, complexo, mas não impossível.

CURADORIA:   Você tem as suas raízes em Bangu, mas vive e mora por todo o Rio de Janeiro. Como feminista, você pode analisar a sua vivência como mulher na cidade?

ALETA VALENTE:   Eu não gosto da ideia de ter raízes. Eu nunca ouvi alguém dizendo que tem raízes em Copacabana ou Ipanema, por que no entendimento geral essas pessoas seriam simplesmente cariocas. Crescer no subúrbio da cidade (maravilhosa) na realidade me confere uma visão panorâmica da cidade. Eu brinco dizendo que não sou suburbana eu sou supraurbana (eu nem sei se esse prefixo confere o sentido ao qual eu gostaria de atrelar) mas é a ideia de que não conheço apenas uma fatia da cidade, conheço o queijo inteiro e cada um de seus buracos. Desde o início da adolescência fiz grandes traslados em busca do que quer que fosse: escola, cinema, praia. Hoje entendo que estou em permanente trânsito e não me sinto representada por lado algum dessa cartografia. No entanto, durante anos sofri silenciosamente com as associações depreciativas em relação ao bairro onde cresci, que carrega o estigma de abrigar um complexo penitenciário. Entendi cedo, desde que comecei a circular na cidade, que o simples fato de dizer onde morava provocava comoção. De piadas previsíveis como " Você está de condicional?" até as mais sexistas como "Você pode receber visita íntima?", além de semblantes que expressavam pena e outros atenciosos perguntando como eu fazia para voltar pra casa sem minima noção do desenho da cidade. Hoje eu compreendo que voltar a morar em Bangu foi uma chance de me entender com o lugar, com as opressões que o própria política deficiente de transporte gera e com um apartheid que opera também através do imaginário. Voltar foi entender meus próprios preconceitos e quando crio imagens periféricas acredito que exponho também a quem se sente desconfortável em relação a seus próprios preconceitos. Ser mulher atravessando a cidade é entender que seu valor decai de acordo com o seu céu, assim como o iptu de “regi˜yes de risco”. É pensar que as altas taxas de natalidade são atribuídas a hipersexualizaçao da mulher periférica, tratando a gravidez como um índice do sexo e ignorando todos os abortos efetuados pela classe média em clinicas particulares.

CURADORIA:   De uma edificação emana sempre uma carga. Dentro dessa idéia da reverberação do espaço, da fiscalidade do concreto, o que você percebe visitando a Torre H?

IGOR VIDOR:   O primeiro impacto é a relação com a verticalidade, isso era previsto em seu projeto, sua espetacularidade vista de longe. No projeto original, a altura buscava a emancipação do sujeito em relação ao espaço natural, como se essa relação estivesse em falta. No mínimo a vista do tal paraíso estaria garantida ao longo dos 37 andares. A ruína da torre me diz muito sobre a falha nessa busca, a falha do projeto moderno, prometido desde de a construção da atual capital federal.

CURADORIA:   Como é trabalhar em um projeto com as características processuais do Permanências e Destruições, com uma lógica de aderência aos espaços? De que modo isso repercute no seu processo artístico?

DANIEL ALBUQUERQUE:   Eu venho notado que eu tendo a produzir e pensar minha produção de forma a incorporar dados da minha experiência no que eu produzo. Dessa forma, os trabalhos acabam se mostrando muito íntimos e autobiográficos. Há no trabalho a minha relação com o processo produtivo, com as minhas condições emocionais, com as coisas que eu penso e converso com as pessoas e etc. Esse ano eu comecei a fazer esses trabalhos que são uns cigarros que são desenvolvidos a partir da secção da forma cilíndrica, algo como o Sérgio Camargo fazia. Faço de uma forma bem mais informal do que o Sérgio Camargo fazia, obviamente. Uso como base para criar as formas os “macarrões" que as pessoas usam nas aulas de natação ou hidroginástica como bóia. Depois tiro a forma em um molde e faço a escultura. Uma vez com a forma feita, eu pinto para chegar na imagem do cigarro. Eu tenho pensado nesses trabalhos como um aglomerado de referências e vontades poéticas. Quando fui visitar a Torre H pela primeira vez, eu fiquei impressionado com a quantidade de referências, as possibilidades nesse espaço são muitas. Mas a base do prédio foi o que mais me impressionou. Acho que os pilotis são o que eu mais gosto nos edifícios modernistas. Os pilotis são sustentação das construções e são elemento básico de identificação da influência modernista na arquitetura. Criar o cruzamento entre essa referência e a imagem do cigarro foi uma tentação que não consegui resistir. O cigarro é essa espécie de “fraqueza" humana, tem a ver com vício, com dependência e também com um ideal de glamour que todos sabemos que é nocivo a saúde.

CURADORIA:   Altura e queda, não como uma pesquisa, mas como elemento que volta em alguns dos seus trabalhos, te provocam de que forma?

JANAÍNA WAGNER:   Atualmente, o ponto conceitual nevrálgico de meu trabalho são as relações de limite, controle e contenção que o homem estabelece com o mundo. Buscando pontos de contato – sejam eles de correspondência ou de atrito – entre o caráter humano e as construções que ele próprio edifica, investigo formas com que seu esforço representa questões referentes a sua própria finitude. A altura de um grande edifício interessa às minhas pesquisas na medida em que coloca o homem em uma posição de certa vulnerabilidade diante de uma massa de concreto e aço que ele próprio projetou e materializou.

CURADORIA:   Você se interessa por idéias de estruturas de abrigo. Como você relaciona isso com a ideia de habitação proposta na pelo Niemeyer pra Barra?

ANTON STEENBOCK:   Um contraste enorme entre uma habitação completamente individual pensada e construída pelo próprio habitante versus um plano de habitação em massa pensado sem individualidade nenhuma.
A Torre H, em seu estado atual com as plantas crescendo, recuperou uma individualidade.
De certa forma virou quase um abrigou natural, lembrando uma caverna em uma montanha artificial.

CURADORIA:   Com origens que distam do Rio de Janeiro, qual é a sua relação pertencimento com a cidade?

ANGELO VENOSA:   Pertencer a um lugar não é algo estático. Varia e modula ao longo do tempo. O que faz com que você acredite pertencer a muitos e nenhum lugar. Como disse meu pai uma vez: há muito tempo já não era italiano e nunca seria brasileiro. De alguma maneira percebo comigo também esse sentimento, de uma precarização do pertencimento. Corresponde também à atração e repulsa pelos lugares onde você segue construindo o seu pertencimento. Onde é que a memória corresponde ao desejo?

CURADORIA:   Vocês pensaram seus trabalhos muito em relação ao que vivenciaram em Minas Gerais, Bahia e São Paulo. Como entendem esse deslocamento para o Rio?

THIS LAND YOUR LAND:   Estamos trabalhando com uma questão que ultrapassa as regiões administrativas, ou seja, a gestão das águas não representa um problema estadual, mas uma problemática em dimensão nacional/global. Desta forma, o modo de lidar com as águas urbanas reflete o pensamento da maioria dos representantes do governo e os interesses das empresas privadas.

Ouvimos recentemente diversos discursos e vimos atitudes diante da falta d'água na região sudeste do país, começando pela disseminação da ideia de que a falta de chuvas era a origem do problema. Diversas obras de engenharia, que não passarão de soluções imediatista, foram executadas para responder a esse problema "da falta de chuva". Ao mesmo tempo, intensificado pela aproximação das Olimpíadas, vemos os projetos de "limpeza " das lagoas da Barra, ou da Baia da Guanabara, criando contenções que formam ilhas de "borracha" para "armazenar" a sujeira. Isso é mais um reflexo do modo como historicamente as águas são pensadas e tratadas no país: canalização de córregos urbanos, esgotamento sanitário e margens usadas pelo sistema viário ou por ocupações irregulares.

Assim, não entendemos o deslocamento para o Rio como o encontro com um novo território mas um mergulho em um lugar com suas especificidades na micro escala, mas onde vemos as mesma soluções da macro escala, da infraestrutura, de um pensamento desenvolvimentista irresponsável que visa o lucro e as soluções a curto prazo.